Empresários que investiram na rede de maquiagem ligada à tradicional fabricante de brinquedos alegam que franquias teriam sido usadas para captar recursos em meio à deterioração financeira do grupo. Processo expõe riscos do franchising e reforça a importância da análise financeira antes de investir.
Por Gabrielle Tricanico | Telebras News | Negócios e Empreendedorismo
O que nasceu como uma aposta de expansão de uma das marcas mais conhecidas do Brasil agora está no centro de uma disputa empresarial e judicial. Franqueados da Estrela Beauty afirmam terem sido prejudicados pelo modelo de negócio e acusam o Grupo Estrela de esconder a situação financeira crítica enquanto ampliava sua rede de franquias.
Em ação protocolada no Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), empresários sustentam que o sistema de franchising teria sido utilizado como instrumento de arrecadação para reforçar o caixa da companhia, transferindo aos investidores parte relevante dos riscos de uma operação que, segundo as alegações apresentadas no processo, já enfrentava dificuldades.
As acusações ganham peso diante da recuperação judicial do Grupo Estrela. Conforme as informações apresentadas, o procedimento envolve oito empresas e reconhece um passivo de aproximadamente R$ 109,2 milhões, incluindo cerca de R$ 3,2 milhões em obrigações trabalhistas.
Do sucesso nas redes sociais à disputa judicial
Lançada em 2018, a Estrela Beauty apostou em uma linha de maquiagem colorida e de apelo jovem, associando os produtos à força de uma marca historicamente vinculada ao mercado brasileiro de brinquedos. A estratégia ganhou visibilidade nas redes sociais e foi seguida pela abertura de unidades franqueadas em diferentes regiões do país.
O cenário descrito atualmente pelos investidores, porém, é muito diferente daquele apresentado durante o período de expansão.
Segundo as alegações dos empresários, teria faltado estrutura adequada para sustentar as unidades. Eles também apontam mudanças frequentes nas orientações comerciais, redução da equipe de suporte e dificuldade para obter informações essenciais sobre indicadores e desempenho da operação.
Um dos pontos mais contundentes apresentados na ação envolve os preços dos produtos adquiridos pelos franqueados. De acordo com os autos relatados, tabelas enviadas pela franqueadora teriam registrado reajustes entre 17% e 204% de um pedido para outro.
Caso essas alegações sejam confirmadas judicialmente, aumentos dessa magnitude podem ter impacto direto sobre margem, capital de giro, formação de preços e capacidade de sobrevivência das unidades.
Circular de Oferta de Franquia entra no centro da discussão
Outro ponto sensível envolve a Circular de Oferta de Franquia (COF), documento fundamental na relação entre franqueador e potencial franqueado.
Os empresários alegam que informações sobre fechamento de lojas e situação deficitária da rede teriam sido omitidas da documentação, prejudicando, segundo a tese apresentada na ação, a avaliação real dos riscos antes da decisão de investimento.
As acusações são dos franqueados e ainda precisam ser analisadas no âmbito judicial. Portanto, não significam, por si só, que tenha ocorrido fraude ou qualquer outra irregularidade por parte do grupo.
Caso acende alerta para quem pretende investir em franquias
Para o mercado de negócios, a disputa envolvendo a Estrela Beauty ultrapassa a situação particular da companhia e coloca novamente em evidência um dos principais desafios do franchising: a diferença entre a força comercial de uma marca e a saúde financeira da empresa que sustenta a operação.
Antes de comprar uma franquia, investidores precisam analisar não apenas faturamento projetado, prazo de retorno e popularidade da marca. Endividamento da franqueadora, histórico de abertura e fechamento de unidades, processos judiciais, relacionamento com antigos franqueados, capacidade logística, evolução dos preços de fornecimento e estrutura de suporte são indicadores importantes para mensurar o risco.
Uma marca conhecida pode facilitar a entrada no mercado, mas não elimina riscos de caixa, gestão ou endividamento.
No caso da Estrela, a recuperação judicial adiciona uma dimensão financeira relevante ao conflito. O passivo de R$ 109,2 milhões demonstra a dimensão dos compromissos submetidos ao processo de reorganização, que busca permitir a continuidade das atividades enquanto as dívidas são renegociadas conforme as regras da recuperação judicial.
O processo movido pelos franqueados deverá agora avançar no Judiciário, onde as acusações, documentos e eventuais manifestações da companhia poderão ser confrontados.
Segundo a publicação que divulgou o caso, o Grupo Estrela foi procurado, mas não houve retorno até a publicação. O espaço permanece aberto para manifestação.





