A inflação dá sinais mais consistentes de desaceleração no Brasil, mas o alívio nos preços ainda convive com um problema que pesa diretamente no orçamento das famílias e na atividade econômica: o elevado custo dos juros.
No acumulado de 12 meses, a inflação chegou a 4,4%, ficando abaixo do teto de 4,5% da meta estabelecida para o país. O centro da meta é de 3%.
O resultado reforça a percepção de que a política monetária está conseguindo conter a inflação. A questão que ganha força agora é o preço que a economia paga para chegar a esse resultado.
Com juros ainda em patamar elevado, o crédito fica mais caro, as prestações pesam mais, empresas encontram maior dificuldade para financiar investimentos e consumidores endividados têm menos espaço no orçamento.
É justamente esse cenário que coloca a taxa de juros no centro do debate econômico.
Alimentos dão alívio ao orçamento
Um dos sinais positivos vem dos supermercados. Os alimentos consumidos dentro de casa registraram mais um mês de deflação.
Entre os produtos que apresentaram redução estão tomate, batata, cenoura e café.
A queda é parcialmente explicada pelo período sazonal mais favorável para a produção agrícola. Desta vez, porém, a redução dos preços está sendo mais intensa do que o normalmente observado nesta época do ano.
O movimento ajuda a compensar as altas registradas no início do ano e representa um alívio principalmente para as famílias de menor renda, que destinam uma parcela maior do orçamento à alimentação.
Mas esse alívio não chega da mesma maneira a todos os setores.
A alimentação fora de casa continua registrando aumento. Restaurantes convivem com custos de salários, aluguel e serviços, que acabam sendo incorporados aos preços cobrados do consumidor.
A inflação de serviços ainda gira em torno de 6% ao ano, um dos pontos que continuam sendo acompanhados com atenção pelo Banco Central.
Luz sobe enquanto combustíveis dão trégua
A conta de energia elétrica também aparece entre as pressões sobre a inflação. Reajustes das concessionárias, inclusive em São Paulo, têm impacto direto sobre as despesas mensais das famílias.
Por outro lado, combustíveis como gasolina, diesel e etanol registraram queda nas coletas de preços, enquanto o vestuário também contribuiu para a desaceleração.
As passagens aéreas tiveram movimento contrário e ficaram mais caras, influenciadas também pela demanda característica das férias de julho.
Até quando o Brasil precisará de juros tão altos?
É neste ponto que os números da inflação encontram uma discussão maior.
Se os preços estão desacelerando e a inflação acumulada já está abaixo do teto da meta, cresce a expectativa sobre quando será possível reduzir de maneira mais significativa o custo do dinheiro no Brasil.
O Banco Central deixou aberta a possibilidade de um novo corte em setembro, que poderia levar a taxa básica para 13,75% ao ano.
Ainda assim, seria um patamar elevado para uma economia que convive com forte endividamento das famílias e dificuldades financeiras no setor produtivo.
Juros altos funcionam como um freio: reduzem consumo, dificultam financiamentos, encarecem investimentos e ajudam a controlar a demanda e, consequentemente, os preços. Mas esse remédio também cobra um preço.
Para quem está endividado, significa crédito mais caro. Para quem pretende comprar um imóvel, um carro ou financiar um negócio, significa prestações maiores. Para as empresas, significa maior custo para investir, produzir e contratar.
O desafio vai além do Banco Central
A discussão sobre juros também passa pelas contas públicas.
Uma trajetória fiscal considerada pouco sustentável aumenta a percepção de risco, influencia as expectativas de inflação e dificulta a manutenção dos juros em níveis mais baixos.
Ao mesmo tempo, o Banco Central ainda acompanha riscos que podem voltar a pressionar os preços nos próximos meses, como condições climáticas adversas sobre a produção de alimentos, comportamento do dólar, cenário internacional e as próprias expectativas para a inflação de 2027.
Em pleno ano eleitoral, portanto, a discussão econômica começa a mudar de foco.
Não basta perguntar quando os juros vão cair. A questão é quais medidas serão necessárias para que o Brasil consiga manter a inflação sob controle sem depender de uma taxa de juros tão elevada por tanto tempo.
Depois de meses de aperto monetário, a inflação começa a responder. Para milhões de brasileiros endividados e empresas que dependem de crédito, porém, o alívio só estará completo quando essa melhora também chegar ao custo do dinheiro.





