Apuração envolvendo a Usina Itajobi, na região de Catanduva, rastreia R$ 370 milhões em direitos creditórios e uma movimentação de R$ 100 milhões que teria passado por empresas, fintechs e fundos antes de alcançar negócios de distribuição de combustíveis; caso acende alerta sobre governança e origem de capital nos setores sucroenergético e energético
Por Gabrielle Tricanico | BUSINESS | TELEBRAS NEWS
Uma investigação criminal iniciada para seguir o caminho do dinheiro também coloca sob os holofotes dois setores estratégicos da economia brasileira: o sucroenergético e o mercado de distribuição de combustíveis.
A Operação Crédito Oculto, desdobramento da Carbono Oculto, investiga uma sofisticada estrutura financeira envolvendo uma usina do interior de São Paulo, fundos de investimento, fintechs, holdings e operações bancárias que, segundo as autoridades, teriam sido utilizadas para ocultar os verdadeiros beneficiários de ativos e movimentações milionárias.
No centro dessa engrenagem aparece a Usina Itajobi, instalada em Marapoama, na região de Catanduva.
Para o ambiente de negócios, o caso chama atenção porque demonstra como uma empresa operacional do setor sucroalcooleiro pode aparecer conectada a instrumentos sofisticados do mercado financeiro e, posteriormente, a operações envolvendo ativos da distribuição de combustíveis.
A investigação ainda está em andamento, e a participação e responsabilidade de cada empresa e pessoa envolvida precisam ser individualizadas.
USINA PASSA A SER PEÇA DE UMA ESTRUTURA FINANCEIRA
A primeira questão analisada pelas autoridades é o controle econômico da empresa.
Segundo a investigação, a titularidade formal da companhia sucroalcooleira teria sido distribuída entre fundos e empresas aparentemente independentes. Os investigadores procuram determinar se essa arquitetura societária escondia quem efetivamente controlava o ativo.
Essa discussão é especialmente relevante para o mercado porque envolve um conceito fundamental nas grandes transações empresariais: o beneficiário final.
Não basta saber qual empresa ou fundo aparece como acionista. Bancos, investidores, reguladores e autoridades precisam identificar quem, no final da cadeia societária, controla o negócio e se beneficia economicamente dele.
Quando essa estrutura passa por diferentes fundos, holdings e sociedades, o processo de compliance e rastreamento do capital torna-se mais complexo.
R$ 370 MILHÕES EM DIREITOS CREDITÓRIOS
Uma das transações analisadas envolve aproximadamente R$ 370 milhões em direitos creditórios relacionados à usina.
Uma empresa ligada a uma sociedade de investimentos teria adquirido esses créditos por meio da transferência de cotas de um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios, o FIDC.
A atenção dos investigadores se voltou para a origem do dinheiro utilizado na operação.
Parte relevante dos recursos empregados na aquisição das cotas teria vindo de fundos relacionados ao próprio grupo investigado.
A suspeita é de uma circulação de recursos por diferentes estruturas financeiras antes de retornarem ao mesmo ambiente econômico.
Para o mercado, esse é um ponto sensível. FIDCs são instrumentos legítimos e importantes para financiamento empresarial e antecipação de recebíveis. A investigação não coloca o instrumento financeiro em questão, mas busca saber como determinados fundos foram utilizados neste caso específico, de onde veio o dinheiro e quem eram seus beneficiários finais.
R$ 100 MILHÕES: O CAMINHO DO DINHEIRO PASSA PELA USINA
Uma segunda operação ajuda a compreender por que a investigação alcançou o mercado de combustíveis.
A Usina Itajobi teria recebido R$ 100 milhões após os recursos passarem por diferentes empresas e estruturas financeiras.
Segundo a investigação, algumas transferências teriam ocorrido em intervalos muito curtos.
Depois de chegar à usina, porém, o dinheiro não teria permanecido ali.
Os recursos teriam sido direcionados a um fundo de investimento do qual a própria companhia aparecia como cotista.
É nesse momento que a investigação começa a construir uma ponte entre usina, mercado financeiro e distribuição de combustíveis.
DA CANA-DE-AÇÚCAR AO MERCADO DE COMBUSTÍVEIS
A rota investigada pode ser compreendida, de maneira simplificada, desta forma:
EMPRESAS → FINTECHS → USINA → FUNDO DE INVESTIMENTO → OPERAÇÕES BANCÁRIAS → HOLDINGS → ATIVOS DE DISTRIBUIÇÃO DE COMBUSTÍVEIS
A sequência é importante porque mostra que a usina não aparece apenas como uma indústria produtora de açúcar e etanol.
Ela teria ocupado uma posição intermediária em uma movimentação financeira posteriormente relacionada à aquisição de ativos no setor de combustíveis.
As holdings Berna e Branson aparecem nessa etapa das investigações. Recursos provenientes das operações sob análise teriam sido empregados em ativos relacionados à Terrana, companhia do segmento de combustíveis.
As autoridades agora procuram estabelecer a natureza de cada transação e identificar se existia propósito econômico legítimo ou se determinadas operações foram estruturadas para dificultar o rastreamento do dinheiro.
COMBUSTÍVEIS E USINAS: DOIS MERCADOS QUE SE ENCONTRAM
A ligação entre uma usina e uma distribuidora não é, por si só, incomum.
O Brasil possui uma cadeia energética profundamente integrada.
Usinas produzem etanol. Distribuidoras compram, armazenam e transportam combustíveis. Postos realizam a comercialização ao consumidor final. Bancos, fundos e investidores financiam diferentes etapas dessa cadeia.
O problema investigado na Crédito Oculto não está nessa integração comercial.
A questão é saber quem financiava determinadas operações, de onde vinham os recursos e se estruturas empresariais legítimas foram utilizadas para ocultar patrimônio ou lavar dinheiro.
Essa distinção é essencial para não transformar uma investigação sobre agentes específicos em suspeita generalizada sobre o setor sucroenergético ou sobre o mercado financeiro.
UMA EMPRESA FINANCEIRA MOVIMENTOU R$ 11,6 BILHÕES
Outro dado amplia a dimensão econômica da investigação.
Uma empresa financeira empregada em operação relacionada à companhia sucroalcooleira teria movimentado aproximadamente R$ 11,6 bilhões entre 2021 e 2025.
O número representa movimentação financeira e não significa que todo esse volume seja considerado ilícito.
O que as autoridades fazem agora é separar as operações regulares das transações consideradas suspeitas e reconstruir a origem e o destino dos recursos.
Para o mercado, esse tipo de investigação mostra a importância crescente de mecanismos de Know Your Customer (KYC), identificação de beneficiário final, prevenção à lavagem de dinheiro, análise de origem de recursos e monitoramento de transações entre partes relacionadas.
O RISCO PARA NEGÓCIOS LEGÍTIMOS
O avanço de organizações criminosas sobre empresas da economia formal representa um problema que vai além da segurança pública.
Ele produz risco concorrencial.
Uma companhia abastecida por recursos ilícitos pode operar sob condições completamente diferentes das enfrentadas por empresas que dependem de crédito bancário, investidores e geração legítima de caixa.
Também existe risco reputacional para instituições financeiras, fundos, fornecedores e parceiros comerciais que façam negócios com empresas posteriormente alcançadas por investigações.
É por isso que casos como a Crédito Oculto aumentam a pressão por procedimentos mais rigorosos de due diligence.
Antes de financiar uma aquisição, receber um novo investidor ou fechar uma operação de grande porte, conhecer apenas a empresa diretamente envolvida pode não ser suficiente. É necessário compreender toda a cadeia societária e identificar quem está por trás dos recursos.
INTERIOR PAULISTA ESTÁ NO CENTRO DE UMA CADEIA ESTRATÉGICA
A presença da Usina Itajobi na região de Catanduva também dá uma dimensão regional importante ao caso.
O interior de São Paulo concentra uma extensa cadeia sucroenergética formada por usinas, produtores de cana, transportadoras, fornecedores de máquinas, empresas de tecnologia, tradings, instituições financeiras e milhares de trabalhadores.
Por isso, uma investigação envolvendo uma usina não produz interesse apenas policial.
Ela toca diretamente em temas como segurança dos investimentos, governança corporativa, crédito, reputação empresarial e proteção da concorrência.
Para investidores e empresas legítimas do setor, combater estruturas utilizadas para lavagem de dinheiro também significa proteger o próprio ambiente de negócios.
CRÉDITO OCULTO COLOCA GOVERNANÇA NO CENTRO DO DEBATE
A Operação Crédito Oculto revela uma mudança importante na forma como o combate ao crime organizado alcança a economia.
O foco deixa de estar apenas no dinheiro em espécie ou em empresas de fachada tradicionais e passa para estruturas muito mais sofisticadas: fundos, fintechs, holdings, direitos creditórios, instrumentos bancários e aquisições empresariais.
No caso investigado, a trilha financeira começa em diferentes estruturas empresariais, alcança uma usina no interior paulista e termina conectada a ativos do mercado de distribuição de combustíveis.
É justamente essa combinação entre economia real e mercado financeiro que as autoridades procuram destrinchar.
Para o setor empresarial, a mensagem que emerge da investigação é objetiva: conhecer a origem do capital, identificar o beneficiário final e acompanhar a trajetória do dinheiro deixaram de ser apenas procedimentos burocráticos de compliance.
São elementos centrais para a segurança de qualquer grande negócio.
As suspeitas apuradas pela Operação Crédito Oculto ainda dependem de comprovação e individualização das responsabilidades. Empresas e pessoas investigadas têm direito ao contraditório e à ampla defesa.





