Mineração de terras raras acende disputa econômica e ambiental no Sul de Minas

August 16, 2026

Projetos bilionários colocam Poços de Caldas no mapa dos minerais estratégicos, mas riscos ambientais, proximidade de áreas urbanas e passivo nuclear ampliam pressão sobre o licenciamento

Por Gabrielle Tricanico | ECONOMIA E NEGÓCIOS | TELEBRAS NEWS

A corrida global por terras raras, minerais considerados estratégicos para setores como tecnologia, energia limpa, indústria automotiva, defesa e fabricação de equipamentos eletrônicos, começa a produzir efeitos econômicos e políticos diretamente no Sul de Minas Gerais. O Planalto de Poços de Caldas, uma das áreas de maior interesse mineral do país, tornou-se centro de uma disputa que envolve investimentos privados, geração de empregos, arrecadação municipal, segurança ambiental e o futuro da atividade econômica regional.

O debate ganhou força após parecer técnico do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) recomendar uma análise integrada dos impactos acumulativos relacionados aos projetos de exploração de terras raras previstos para a região.

Entre os empreendimentos estão o Projeto Colossus, associado à Viridis Mining and Minerals, e o Projeto Caldeira, da Meteoric Resources. A presença de diferentes projetos em uma mesma área transforma o Planalto de Poços de Caldas em uma nova fronteira mineral brasileira e amplia a necessidade de avaliar não apenas cada empreendimento isoladamente, mas seus efeitos conjuntos sobre água, solo, infraestrutura e ocupação urbana.

Terras raras podem transformar economia regional

Economicamente, a descoberta e exploração desses minerais têm potencial para alterar a estrutura produtiva regional.

As terras raras são utilizadas na produção de ímãs permanentes, motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos e diversas tecnologias consideradas essenciais para a transição energética. Por isso, países e grandes grupos industriais procuram reduzir a dependência das cadeias internacionais de fornecimento, especialmente da China.

Nesse cenário, depósitos brasileiros passaram a despertar maior interesse de investidores internacionais.

Para Poços de Caldas e municípios do entorno, uma nova cadeia mineral pode significar investimentos, contratação de fornecedores, empregos especializados, demanda por transporte, engenharia, construção civil, serviços, hotelaria e comércio, além de potenciais receitas tributárias e compensações relacionadas à exploração mineral.

Mas o tamanho da oportunidade econômica é proporcional à necessidade de controle dos impactos.

Passivo nuclear aumenta preocupação

Um dos pontos mais sensíveis levantados no debate é a proximidade dos projetos com o antigo complexo de mineração de urânio das Indústrias Nucleares do Brasil (INB).

O histórico da atividade nuclear no Planalto de Poços de Caldas torna a discussão ambiental especialmente delicada.

Entre as preocupações estão possíveis alterações das águas subterrâneas, contaminação associada ao lençol freático e impactos sobre áreas relacionadas às bacias dos rios Mogi Guaçu e Pardo.

Isso acrescenta uma variável econômica importante: segurança hídrica também é infraestrutura econômica.

Qualquer comprometimento dos recursos hídricos pode atingir não apenas moradores, mas agricultura, turismo, indústria, serviços e novos investimentos em diferentes municípios.

Mineração próxima da área urbana provoca reação

Outro ponto que aumenta a pressão sobre o Projeto Colossus é a proximidade das áreas previstas para intervenções em relação à Zona Sul de Poços de Caldas.

Segundo informações divulgadas no debate público local, determinadas escavações poderiam ocorrer a aproximadamente 270 metros de residências, escolas e unidades de saúde.

A situação provocou mobilização de moradores e entidades socioambientais.

A Prefeitura de Poços de Caldas também encaminhou manifestações aos órgãos ambientais estaduais pedindo que atividades minerárias não sejam autorizadas próximas às áreas habitadas.

O posicionamento, entretanto, abriu uma nova frente de discussão.

Movimentos locais argumentam que o próprio município concedeu, em fevereiro de 2024, uma Certidão de Uso e Ocupação do Solo, documento utilizado no processo administrativo relacionado ao avanço do empreendimento.

Parte das entidades agora pressiona pela anulação desse documento.

Decisão pode afetar ambiente de negócios

A controvérsia coloca o município diante de uma equação complexa.

De um lado está a possibilidade de participar de uma cadeia mundial de minerais críticos, atraindo capital estrangeiro, empregos, fornecedores e desenvolvimento tecnológico.

Do outro, estão os potenciais custos ambientais, urbanos e sociais de uma mineração instalada muito próxima de áreas densamente ocupadas.

Para investidores, o impasse também representa risco.

Mudanças nas autorizações municipais, judicialização, mobilização popular ou novas exigências ambientais podem provocar atrasos nos cronogramas, aumento dos custos dos projetos e revisão das decisões de investimento.

É justamente por isso que o processo de licenciamento passa a ter importância não apenas ambiental, mas também econômica.

Poços de Caldas diante de uma escolha estratégica

O desafio regional será definir qual modelo de mineração poderá conviver com uma economia historicamente ligada ao turismo, às águas minerais, ao comércio, aos serviços e à qualidade ambiental.

Poços de Caldas possui uma marca territorial diretamente associada às águas termais e à condição de estância hidromineral. Um eventual impacto ambiental relevante poderia, portanto, produzir reflexos sobre outros setores econômicos.

Ao mesmo tempo, ignorar o potencial das terras raras significaria deixar de participar de uma das cadeias industriais mais estratégicas das próximas décadas.

A discussão deixa de ser simplesmente “mineração contra meio ambiente”. O ponto central passa a ser onde, como e sob quais condições a exploração mineral pode ocorrer sem comprometer ativos econômicos já consolidados na região.

O Planalto de Poços de Caldas pode se tornar uma peça importante na estratégia brasileira de minerais críticos. Antes disso, porém, empresas, governos e órgãos ambientais terão de demonstrar que o desenvolvimento dessa nova fronteira mineral é compatível com a segurança hídrica, a população urbana e a sustentabilidade econômica regional.