Guerra pressiona petróleo, eleva custo do querosene e impõe conta extra de R$ 5,2 bilhões às aéreas brasileiras

agosto 12, 2026

Alta do QAV provocada pela escalada geopolítica no Oriente Médio pressiona Azul, Gol e Latam, amplia o peso do combustível nos custos operacionais e ameaça tarifas, rotas e conectividade aérea no Brasil.

Por Gabrielle Tricanico | Telebras News | Negócios, Energia e Aviação

A escalada dos conflitos no Oriente Médio já produz efeitos bilionários sobre a economia brasileira e coloca o setor aéreo entre os mais expostos à volatilidade internacional do petróleo. As companhias aéreas brasileiras acumulam R$ 5,2 bilhões em gastos adicionais com querosene de aviação (QAV) desde o início do conflito entre Estados Unidos e Irã, em 28 de fevereiro, segundo levantamento da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear).

O número revela uma cadeia de impacto que começa no preço internacional do barril, chega às distribuidoras de combustível e termina nos balanços das empresas, na definição da malha aérea e, potencialmente, no bolso dos passageiros.

Segundo dados divulgados pela Abear, o QAV acumula alta de 49% desde o começo do conflito, já considerando o reajuste de 1,9% aplicado no início de agosto.

Combustível passa a consumir parcela ainda maior das operações

O problema ganha dimensão estratégica porque o querosene é um dos principais componentes da estrutura de custos das companhias aéreas.

Com a escalada dos preços, o QAV passou de aproximadamente 32% para 39% dos custos operacionais das empresas, segundo os dados divulgados pelo setor. Isso significa que praticamente quatro de cada dez reais empregados na operação aérea estão relacionados ao combustível.

A pressão também vem se acumulando rapidamente. Em junho, a própria Abear estimava em R$ 3,8 bilhões o gasto adicional das empresas desde o começo da guerra. Dois meses depois, a estimativa chegou aos R$ 5,2 bilhões.

Esse avanço demonstra como choques geopolíticos distantes geograficamente do Brasil podem atingir diretamente setores intensivos em energia.

Petrobras, petróleo e dólar entram na equação

A formação do preço do QAV é especialmente sensível ao mercado internacional. Em documento apresentado à Câmara dos Deputados, a Petrobras explicou que os preços vendidos às distribuidoras são definidos por uma fórmula contratual com ajustes mensais, utilizada há mais de duas décadas.

Essa característica deixa a aviação brasileira exposta a duas variáveis decisivas: petróleo e câmbio. Quando o barril sobe no exterior e o real perde valor diante do dólar, a pressão sobre o combustível pode aumentar.

Em abril, por exemplo, o preço médio de venda do QAV da Petrobras às distribuidoras chegou a registrar reajuste de 54,8%, equivalente a R$ 1,96 por litro, em relação ao mês anterior, em meio à forte elevação das cotações internacionais.

Conta bilionária pode chegar ao passageiro

Para o mercado, a questão agora é saber por quanto tempo as companhias conseguirão absorver esse choque sem ampliar o repasse para as tarifas.

O combustível mais caro reduz margens e aumenta a pressão por ajustes operacionais. Dependendo da duração do cenário, as empresas podem rever frequências, capacidade, expansão da malha e rentabilidade de determinadas rotas — principalmente aquelas com menor demanda.

O risco é particularmente relevante para a aviação regional, na qual operações com menor escala tendem a ser mais sensíveis ao aumento dos custos.

O setor já vinha dando sinais dessa pressão. Em junho, Azul, Gol e Latam anunciaram redução conjunta equivalente a uma média de 121 voos diários, como parte das medidas para enfrentar os custos elevados do combustível.

Crise do QAV ultrapassa os aeroportos

O impacto econômico também vai além das companhias aéreas. Uma eventual redução de oferta ou encarecimento persistente das passagens pode atingir turismo, hotelaria, eventos corporativos, comércio, transporte de cargas e a própria integração econômica entre regiões brasileiras.

Para empresas, viagens corporativas mais caras significam aumento de despesas. Para destinos turísticos dependentes da aviação, menos assentos podem significar menor circulação de visitantes e dinheiro.

O choque de R$ 5,2 bilhões, portanto, transforma o QAV em mais do que uma discussão sobre combustível. A guerra coloca novamente a segurança energética, a competitividade da aviação e a dependência brasileira das oscilações internacionais do petróleo no centro do debate econômico.