Havanna renegocia R$ 127 milhões no Brasil enquanto acelera expansão e mira 700 lojas

August 18, 2026

Linha fina: Operação brasileira recorre à recuperação extrajudicial para reorganizar passivo ligado, segundo a empresa, a garantias concedidas a companhias do mesmo grupo. Caso expõe uma contradição empresarial: a rede abre novas unidades e amplia presença no país enquanto administra uma dívida milionária.

Por Gabrielle Tricanico | TELEBRAS NEWS | NEGÓCIOS E EMPRESAS

A operação brasileira da Havanna, uma das marcas argentinas mais conhecidas no segmento de cafeterias, alfajores e doce de leite, entrou em um processo de recuperação extrajudicial para renegociar aproximadamente R$ 127 milhões em dívidas. O movimento chama atenção não apenas pelo tamanho do passivo, mas pelo momento vivido pela companhia: enquanto reorganiza compromissos financeiros, a rede mantém uma estratégia agressiva de expansão no Brasil.

O pedido foi protocolado no fim de 2025, e o plano de reestruturação foi apresentado à Justiça no primeiro semestre de 2026. O processo tramita na 1ª Vara Regional de Competência Empresarial de São Paulo.

Segundo a versão apresentada pela companhia, a origem do problema financeiro não estaria diretamente relacionada ao desempenho comercial das cafeterias Havanna no país. Parte relevante da exposição teria surgido de garantias prestadas em favor de outras empresas pertencentes ao mesmo grupo controlador, situação que colocou a operação brasileira na condição de garantidora de obrigações de terceiros.

Esse ponto é central para compreender o caso. Uma empresa pode apresentar crescimento de vendas, abertura de unidades e geração operacional positiva e, ainda assim, enfrentar dificuldades financeiras quando seu balanço passa a carregar obrigações decorrentes de garantias, avais ou dívidas relacionadas a outras companhias.

Plano prevê forte desconto para parte dos credores

Outro elemento que chama atenção está nas condições propostas para a renegociação.

Entre as alternativas previstas está a possibilidade de determinados credores aceitarem uma liquidação imediata correspondente a apenas 5% do valor devido, o que representaria um deságio de 95%. Outras categorias de credores, especialmente aquelas que fornecerem novos recursos ou se enquadrarem nas condições estabelecidas no plano, poderão receber tratamento diferente.

A lógica é criar alternativas capazes de reduzir rapidamente o passivo e, ao mesmo tempo, preservar liquidez suficiente para manter a companhia funcionando.

A recuperação extrajudicial é diferente da recuperação judicial tradicional. Nesse mecanismo, a negociação ocorre principalmente entre empresa e credores e posteriormente pode ser submetida à homologação da Justiça. Pela legislação brasileira, um plano que pretenda alcançar todos os credores de determinada espécie precisa observar o quórum previsto na Lei nº 11.101/2005.

O instrumento ganhou espaço no ambiente corporativo brasileiro por permitir reestruturações potencialmente mais rápidas e menos complexas do que uma recuperação judicial completa.

Crise financeira ocorre em meio à expansão

O contraste mais relevante do caso Havanna aparece nos números de expansão.

Mesmo durante o processo de reorganização financeira, mais de 30 novas unidades foram inauguradas no Brasil apenas no primeiro semestre de 2026, segundo informações divulgadas pela companhia.

A estratégia de longo prazo também permanece ambiciosa: a empresa trabalha com a perspectiva de alcançar 700 pontos de venda no país até 2030.

O Brasil já representa o segundo maior mercado mundial da Havanna, atrás apenas da Argentina, transformando a operação brasileira em peça estratégica para o crescimento internacional da marca.

Essa combinação — expansão física simultânea à renegociação de dívidas — mostra que recuperação extrajudicial não significa necessariamente paralisação das atividades ou encerramento da empresa. O objetivo do instrumento é justamente reorganizar determinadas obrigações financeiras para preservar uma operação considerada economicamente viável.

Havanna entra em uma tendência maior do mercado brasileiro

O caso também precisa ser observado dentro de um movimento mais amplo da economia.

As recuperações extrajudiciais vêm crescendo no Brasil diante do custo elevado do crédito e do aumento do endividamento corporativo. Dados divulgados pelo Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial mostram que os pedidos passaram de 16 em 2021 para 84 em 2025. Em 2026, outras grandes companhias também recorreram ao instrumento para reorganizar passivos.

Para empresas com operações funcionando, mas pressionadas por dívidas, juros ou estruturas financeiras construídas em anos anteriores, a recuperação extrajudicial tornou-se uma alternativa para tentar corrigir o balanço antes que a situação evolua para uma crise mais profunda.

No caso da Havanna, o teste será duplo: reduzir a pressão de um passivo superior a R$ 127 milhões e provar que a expansão da rede brasileira consegue gerar caixa suficiente para sustentar o crescimento planejado.

A abertura de dezenas de unidades indica confiança na força comercial da marca. A renegociação, por outro lado, evidencia como estruturas societárias, garantias financeiras e endividamento podem colocar sob pressão até operações que continuam crescendo.

Para o mercado, portanto, o indicador decisivo não será apenas quantas novas cafeterias a Havanna consegue inaugurar, mas se a companhia conseguirá transformar expansão em geração sustentável de caixa enquanto reorganiza suas obrigações financeiras.