“Divórcio” bilionário da moda: Arezzo&Co e SOMA desfazem fusão, ações disparam e mercado testa nova tese para os negócios

September 3, 2026

Reorganização da Azzas 2154 devolverá autonomia aos dois grupos, criará companhias independentes na B3 e colocará a FARM Rio em estrutura própria. Para empresários e investidores, ruptura expõe uma lição importante: escala e portfólio não substituem alinhamento de governança.

Por Telebras News | BUSINESS & NEGÓCIOS

Pouco mais de dois anos depois de uma das fusões mais ambiciosas do varejo de moda brasileiro, a Azzas 2154 prepara uma mudança radical de rota. Alexandre Birman e Roberto Jatahy chegaram a um acordo para separar novamente os negócios da Arezzo&Co e do SOMA, encerrando uma combinação empresarial que nasceu com a promessa de criar uma potência nacional de moda, calçados e lifestyle.

A reação da Bolsa mostrou o tamanho da expectativa em torno da decisão. Nesta quarta-feira (2), as ações AZZA3 chegaram a avançar mais de 12% durante o pregão, depois da divulgação da reorganização. O movimento sugere que parte dos investidores vê valor na simplificação da estrutura e, principalmente, na redução das incertezas provocadas pelas divergências entre os principais acionistas.

Duas empresas, duas estratégias

Pelo desenho anunciado, a atual estrutura será segregada em duas companhias abertas independentes, ambas com ações negociadas no Novo Mercado da B3.

A Arezzo&Co, sob liderança do bloco ligado a Birman, ficará concentrada em marcas e operações como Arezzo, Schutz, Anacapri, Alexandre Birman, Vans, Carol Bassi e Hering.

Já o SOMA, ligado ao bloco de Jatahy, reunirá Animale, NV, Maria Filó, Cris Barros, Reserva, Oficina e Foxton.

É uma separação que vai muito além de trocar marcas de lado. Cada companhia passará a ter administração, governança, estratégia empresarial e capacidade de financiamento próprias, reduzindo a necessidade de conciliar dentro da mesma organização modelos e visões diferentes de gestão.

FARM vira peça estratégica do tabuleiro

Um dos ativos mais importantes da reorganização terá tratamento diferente.

A FARM Rio e suas extensões, incluindo Farm Brasil, Farm Internacional e Fábula, ficarão dentro de uma sociedade própria, com governança independente. A Arezzo&Co deterá 57,4%, enquanto o SOMA ficará com 42,6%.

E existe outro componente relevante para o mercado: continuam sendo avaliadas alternativas estratégicas para a FARM. Segundo informações publicadas nesta quarta-feira, um processo conduzido pelo Morgan Stanley avalia possibilidades envolvendo a marca, inclusive uma eventual transação.

Isso transforma a FARM em um dos ativos mais importantes a serem observados no pós-separação.

Governança estava no centro da crise

A ruptura não surgiu de uma simples revisão de portfólio.

As diferenças entre Birman e Jatahy sobre a condução dos negócios chegaram ao campo judicial e à arbitragem. Em maio, uma disputa relacionada à organização da Reserva explicitou o conflito sobre atribuições, estratégia e poder decisório dentro da companhia.

Para o mundo empresarial, o episódio deixa uma mensagem relevante: uma fusão pode funcionar financeiramente no papel e ainda enfrentar dificuldades quando cultura corporativa, liderança e governança não caminham na mesma direção.

A combinação de empresas não termina na assinatura de um contrato. Ela exige integração operacional, definição clara de poder e capacidade de transformar sinergias projetadas em resultados concretos.

Mercado prefere clareza

Os números ajudam a explicar a reação dos investidores.

A companhia vinha enfrentando pressão operacional: o lucro caiu 62,5% no segundo trimestre de 2026, em um cenário de retração de receita e aumento de custos. As ações também haviam sofrido ao longo do ano em meio às incertezas societárias.

Por isso, a forte valorização registrada após o anúncio pode ser interpretada menos como celebração do fim da fusão e mais como uma aposta em clareza estratégica, responsabilização das gestões e maior capacidade de cada grupo executar sua própria tese de crescimento.

Depois da reorganização, o bloco Birman deverá deter 32,13% da Arezzo&Co e 6,18% do SOMA. O bloco Jatahy terá 25,95% do SOMA. Os demais acionistas representarão 67,87% do capital de cada companhia.

A lição para empreendedores

O caso Azzas 2154 tende a virar um estudo relevante de estratégia empresarial brasileira.

A fusão mostrou a força da consolidação: marcas conhecidas, escala, canais de distribuição, presença internacional e complementaridade de portfólio. A separação, porém, mostra o outro lado das operações de M&A: quanto maior o negócio, maior a importância de definir quem decide, como decide e qual estratégia será seguida.

Para empreendedores, investidores e executivos, talvez essa seja a principal leitura da operação. Crescer por aquisição ou fusão pode acelerar uma empresa, mas tamanho sem alinhamento pode aumentar a complexidade em vez de gerar eficiência.

A reorganização ainda não está concluída. O processo depende de etapas societárias, aprovação de credores, análise do Cade e procedimentos relacionados à listagem das companhias. A expectativa divulgada é de conclusão no primeiro trimestre de 2027.

Até lá, a Azzas 2154 continuará integrada. Depois disso, o mercado poderá descobrir se Arezzo&Co e SOMA conseguem criar separadas o valor que a fusão prometeu entregar juntas.