Com margem EBITDA de até 35% nas operações maduras, grupo aposta em gestão profissional, expansão e consultoria internacional para reposicionar um segmento historicamente marcado por estigma no mercado imobiliário
Por Gabrielle Tricanico | NEGÓCIOS E ECONOMIA | TELEBRAS NEWS
O mercado de motéis começa a ganhar uma nova leitura dentro do setor imobiliário brasileiro. De um segmento tradicionalmente associado a negócios familiares e pouco observado por investidores institucionais, surgem operações que apostam em profissionalização, gestão de ativos, experiência premium e indicadores de rentabilidade para transformar o modelo em uma plataforma de negócios.
É nessa estratégia que avança a LHG, empresa de gestão de motéis originada a partir do Lush, empreendimento de luxo instalado no bairro do Ipiranga, na Zona Sul de São Paulo. O grupo encerrou 2025 com faturamento de R$ 54 milhões e projeta alcançar R$ 68 milhões em 2026, segundo os números divulgados pela companhia.
Caso a previsão se confirme, o avanço será de aproximadamente 25,9% em apenas um ano, uma expansão de R$ 14 milhões na receita. Para os próximos ciclos, a expectativa apresentada pela empresa é sustentar crescimento próximo de 20% ao ano.
Margem EBITDA de 35% coloca rentabilidade no centro da estratégia
Um dos números que mais chama atenção é a rentabilidade. Nas unidades em que a operação já atingiu maturidade, a LHG informa trabalhar com margem EBITDA na casa dos 35%.
Na prática, o indicador mostra quanto da receita permanece como resultado operacional antes de juros, impostos, depreciação e amortização. Uma margem elevada aumenta a capacidade de geração de caixa do negócio e pode ampliar o interesse de investidores por um segmento que, durante décadas, permaneceu distante das principais discussões sobre hotelaria e ativos imobiliários.
A estratégia da companhia passa justamente por tentar mudar essa percepção. Em vez de tratar o motel exclusivamente como um imóvel destinado à hospedagem de curta permanência, o modelo incorpora conceitos de hospitalidade, entretenimento, gastronomia, tecnologia, experiência do consumidor e gestão de receita por quarto.
Lush aposta no mercado premium com diárias acima de R$ 3 mil
O Lush funciona como uma espécie de laboratório dessa estratégia. O empreendimento nasceu a partir de um antigo motel de administração familiar no Ipiranga e passou por um processo de reposicionamento para atender o mercado de luxo.
Algumas diárias podem ultrapassar R$ 3 mil, colocando determinadas acomodações em uma faixa de preço comparável à praticada por hotéis de alto padrão.
Segundo os executivos da empresa, as métricas de receita por quarto do empreendimento superam a média encontrada na hotelaria tradicional. A comparação evidencia uma característica importante desse modelo: a possibilidade de comercializar uma mesma acomodação mais de uma vez ao longo do dia, dependendo da duração das estadias e da taxa de ocupação.
Isso modifica a lógica econômica do ativo e torna indicadores como ocupação, ticket médio, giro dos apartamentos, receita por unidade disponível e custos operacionais decisivos para medir a eficiência do empreendimento.
De um motel em São Paulo para uma plataforma de gestão
A ambição da LHG vai além da exploração de unidades próprias. A companhia passou a administrar empreendimentos de terceiros e também atua na prestação de consultoria.
O modelo permite transformar conhecimento operacional em uma segunda frente de receita, reduzindo a dependência da expansão exclusivamente por meio da aquisição ou construção de novos imóveis.
A atuação já ultrapassou o mercado brasileiro. A empresa presta consultoria para redes nos Estados Unidos e no Equador, sinalizando uma tentativa de exportar processos de gestão desenvolvidos a partir da operação brasileira.
Essa diversificação pode ser relevante para a escalabilidade do negócio. Enquanto a abertura de uma unidade própria exige capital imobiliário, obras, licenciamento e implantação, contratos de administração e consultoria possibilitam ampliar a presença da marca com menor necessidade de investimento direto em ativos.
Mercado bilionário ainda busca maior profissionalização
O movimento também revela uma transformação mais ampla no setor. Motéis ocupam terrenos importantes em grandes centros urbanos, empregam mão de obra intensiva e movimentam cadeias que incluem alimentação, bebidas, lavanderia, limpeza, tecnologia, manutenção, arquitetura e construção civil.
O desafio para empresas que pretendem consolidar o segmento como uma categoria de investimento está em demonstrar governança, previsibilidade de receitas, padronização operacional e capacidade de expansão.
A trajetória da LHG indica justamente uma tentativa de transformar um negócio historicamente pulverizado em uma operação empresarial estruturada.
Com R$ 54 milhões faturados em 2025, projeção de R$ 68 milhões para 2026 e margem EBITDA de aproximadamente 35% nas unidades maduras, o grupo coloca números no centro de uma tese: o motel pode deixar de ser observado apenas pelo tipo de hospedagem que oferece e passar a ser analisado também pelo que representa como ativo imobiliário, operação de hospitalidade e negócio gerador de caixa.





