Popularização de medicamentos GLP-1, como Mounjaro, Wegovy e Zepbound, provoca mudanças no corpo de milhões de consumidores, acelera a renovação de guarda-roupas e abre uma nova frente de negócios para o varejo global.
Por Gabrielle Tricanico | TELEBRAS NEWS | NEGÓCIOS & ECONOMIA
As chamadas canetas emagrecedoras estão começando a movimentar muito mais do que o bilionário mercado farmacêutico. A popularização dos medicamentos da classe GLP-1 está produzindo efeitos sobre alimentação, comportamento e consumo — e a indústria da moda surge como uma das potenciais beneficiárias dessa transformação.
No centro dessa discussão está a Victoria’s Secret. A marca americana atravessa uma forte recuperação operacional e suas ações acumulam valorização próxima de 300% em 12 meses. Ao mesmo tempo, analistas começam a considerar outro fator na avaliação do setor: milhões de consumidores estão emagrecendo e, consequentemente, precisam substituir roupas que deixaram de servir.
O fenômeno ganhou força com medicamentos como Mounjaro, Wegovy e Zepbound. O impacto econômico começa justamente depois da perda de peso: quando o corpo muda, muda também a numeração de calças, vestidos, camisas, roupas íntimas e outras peças.
Canetas emagrecedoras criam um novo consumidor
Para o varejo, trata-se de uma mudança relevante porque parte dessas compras deixa de ser apenas discricionária.
Uma pessoa pode decidir não renovar o guarda-roupa por algum tempo. Mas uma redução expressiva de peso pode tornar necessária a substituição de diversas peças.
Levantamentos citados pelo mercado americano ajudam a dimensionar esse comportamento. Pesquisa da PwC apontou que 73% dos usuários de GLP-1 registraram mudanças significativas no tamanho das roupas, enquanto os gastos com vestuário aumentaram 9,9% depois de seis a oito meses de tratamento.
A Circana, empresa especializada em inteligência de consumo, estima ainda que 80% dos usuários precisarão comprar roupas novas como consequência das mudanças corporais.
Isso transforma o emagrecimento em um fenômeno com potencial para gerar uma nova onda de consumo.
Victoria’s Secret pode estar no lugar certo dessa transformação
A relação com a Victoria’s Secret é particularmente relevante porque mudanças corporais têm impacto direto sobre lingerie.
Sutiãs, por exemplo, dependem de medidas específicas do corpo. Alterações significativas de peso podem exigir não apenas uma nova peça, mas uma nova numeração.
É justamente esse tipo de comportamento que passou a chamar a atenção do mercado financeiro.
Analistas do Wells Fargo classificaram a expansão dos medicamentos GLP-1 como uma “megatrend” para o mercado de vestuário, diante da perspectiva de que usuários desses tratamentos renovem partes importantes de seus guarda-roupas.
A tese abre uma discussão maior: as grandes vencedoras da expansão das canetas emagrecedoras podem não estar apenas na indústria farmacêutica.
Ações sobem, mas Victoria’s Secret também melhora o próprio negócio
É importante separar os movimentos.
A valorização das ações da Victoria’s Secret não pode ser atribuída exclusivamente às canetas emagrecedoras. A empresa vive uma recuperação operacional própria, com crescimento das vendas, reposicionamento comercial e fortalecimento de categorias estratégicas.
No primeiro trimestre fiscal de 2026, as vendas cresceram 15%, para aproximadamente US$ 1,56 bilhão, enquanto as vendas comparáveis avançaram 13%.
O GLP-1 aparece, portanto, como uma possível força adicional sobre um negócio que já vinha apresentando recuperação.
Para investidores, essa combinação é especialmente relevante: melhora dos fundamentos da companhia somada a uma transformação externa capaz de ampliar a demanda por seus produtos.
Efeito Mounjaro pode mudar estoques das grandes redes
Existe ainda uma consequência menos visível e potencialmente bilionária.
A indústria da moda precisa prever antecipadamente quantas peças produzir de cada tamanho. Se uma parcela relevante dos consumidores começar a migrar para numerações menores, as tradicionais curvas de produção poderão deixar de refletir a demanda real.
O chamado “efeito Mounjaro” pode obrigar fabricantes e varejistas a recalcular estoques, tamanhos, compras, produção e distribuição.
Quem identificar a transformação primeiro poderá reduzir encalhes e capturar uma demanda crescente. Quem reagir tarde poderá acumular produtos em numerações que perderam participação nas vendas.
Da farmácia para o shopping: nasce uma nova cadeia de negócios
O impacto das canetas emagrecedoras começa, assim, a percorrer uma cadeia muito maior.
Primeiro cresce a indústria farmacêutica. Depois mudam os hábitos alimentares. Em seguida aparecem transformações no consumo de proteínas, suplementos, academias, beleza e bem-estar. Agora, moda e vestuário entram nessa equação.
Há inclusive um possível benefício para as lojas físicas. Consumidores que mudaram significativamente de peso muitas vezes precisam descobrir novamente qual numeração utilizam, tornando o provador mais importante e estimulando visitas aos pontos de venda.
É uma transformação que pode atingir indústria, varejo, e-commerce, shopping centers, logística e mercado financeiro simultaneamente.
O caso da Victoria’s Secret simboliza essa nova fronteira.
As canetas emagrecedoras começaram como uma revolução da saúde, tornaram-se um dos maiores negócios da indústria farmacêutica e agora começam a produzir efeitos em outros setores da economia.
Para o mercado, a próxima grande disputa será descobrir quais marcas conseguirão transformar os novos corpos e hábitos de milhões de consumidores em novos negócios.





