Cafés especiais viram negócio de alto valor: Brasil coloca 12 marcas entre as 100 melhores da América do Sul

September 25, 2026

Ranking de 2026 evidencia avanço de um mercado que conecta agronegócio, torrefação, tecnologia, gastronomia, franquias, e-commerce e experiência de consumo; Curitiba lidera presença brasileira, enquanto São Paulo e Sorocaba colocam o mercado paulista na seleção

Por Gabrielle Tricanico | BUSINESS & NEGÓCIOS | TELEBRAS NEWS

O café brasileiro está avançando para além da porteira das fazendas. Tradicionalmente reconhecido pela força na produção e exportação do grão, o país também consolida uma nova frente de negócios: cafeterias especializadas, microtorrefações e marcas capazes de transformar a matéria-prima em produtos e experiências de maior valor agregado.

A presença de 12 cafeterias brasileiras entre as 100 selecionadas pelo The South America’s 100 Best Coffee Shops 2026 ajuda a dimensionar essa transformação. Na edição anterior, eram sete representantes nacionais. O avanço para 12 significa crescimento de aproximadamente 71% na presença brasileira dentro da seleção, embora esse percentual não deva ser confundido com crescimento de faturamento ou do mercado nacional como um todo.

O principal destaque é empresarial e regional. A Lucca Cafés Especiais, de Curitiba (PR), alcançou a 4ª colocação, tornando-se a brasileira mais bem posicionada.

Um mercado que vende muito mais do que café

Por trás de uma xícara de café especial existe uma cadeia extensa de negócios.

Produtores, cooperativas, compradores especializados, classificadores, torrefadores, fabricantes de máquinas, fornecedores de embalagens, empresas de logística, cafeterias, restaurantes, plataformas digitais, escolas de formação de baristas e comércio eletrônico participam desse ecossistema.

O diferencial econômico está justamente na capacidade de agregar valor ao grão antes que ele chegue ao consumidor final.

Origem, variedade, propriedade produtora, processo de fermentação, torra, método de extração, rastreabilidade e história do produtor passam a fazer parte da construção comercial do produto.

Nesse ambiente, a cafeteria deixa de funcionar somente como ponto de venda e pode assumir diferentes papéis: loja, torrefação, laboratório, escola, e-commerce, espaço gastronômico e canal de relacionamento direto entre consumidor e produtor.

Lucca mostra como diversificação amplia o negócio

A trajetória da Lucca Cafés Especiais ajuda a compreender esse modelo.

Fundada em 2002 por Georgia Franco de Souza e Luiz Otávio Franco Souza, em Curitiba, a empresa apostou ainda no início dos anos 2000 em torrefação própria e seleção de cafés de origem única.

Atualmente, trabalha com mais de 50 microlotes de fazendas brasileiras ao longo do ano e ampliou a atuação para outras áreas, incluindo panificação artesanal de fermentação natural, cursos e comércio eletrônico.

É uma estratégia de diversificação importante do ponto de vista empresarial. Em vez de depender exclusivamente da venda de bebidas dentro da cafeteria, o negócio pode desenvolver diferentes fontes de receita e ampliar o relacionamento com o consumidor para além do estabelecimento físico.

A quarta colocação continental também funciona como ativo de reputação para a marca e amplia sua exposição em um mercado no qual procedência, experiência e credibilidade possuem peso comercial.

Brasil espalha negócios especializados por dez cidades

Outro dado importante para o ambiente empresarial é a descentralização geográfica. Os 12 representantes brasileiros estão distribuídos por diferentes mercados consumidores:

4ª — Lucca Cafés Especiais — Curitiba (PR)
13ª — RDV Roasters — Maceió (AL)
14ª — Do Coado ao Espresso — Salvador (BA)
17ª — Elisa Café e Torrefação — Belo Horizonte (MG)
22ª — King Experience – Cafeteria e Escola de Café — Goiânia (GO)
33ª — Williams & Sons Coffee Co. — Porto Alegre (RS)
36ª — Abuela Café & Torrefação — Porto Alegre (RS)
49ª — Giotti Cafés Microtorrefação — Juiz de Fora (MG)
57ª — Royalty Café — Curitiba (PR)
62ª — Coffee Five — Rio de Janeiro (RJ)
76ª — Cafeteria 15 Coffee Company — Sorocaba (SP)
89ª — Cupping Café — São Paulo (SP)

A distribuição mostra oportunidades comerciais para além dos tradicionais polos de consumo de São Paulo e Rio de Janeiro. Curitiba, Porto Alegre, Belo Horizonte, Juiz de Fora, Goiânia, Salvador e Maceió também aparecem dentro dessa economia especializada.

Interior paulista entra no circuito com Sorocaba

Para São Paulo, existe um componente regional importante: capital e interior aparecem no ranking.

A Cafeteria 15 Coffee Company coloca Sorocaba na 76ª posição, enquanto a Cupping Café representa a capital paulista na 89ª.

A presença de Sorocaba evidencia uma tendência importante para investidores e empreendedores: produtos associados anteriormente a nichos de consumo das grandes capitais encontram demanda também em cidades economicamente fortes do interior.

Esse movimento acompanha transformações no setor de alimentação e serviços, com consumidores buscando não apenas o produto, mas ambientes, atendimento especializado, procedência e experiência.

Café especial cria oportunidades do campo ao digital

O desenvolvimento do segmento também cria negócios complementares. A expansão das cafeterias pode movimentar fabricantes e distribuidores de máquinas de espresso, moedores, filtros, acessórios, embalagens, sistemas de gestão e meios de pagamento.

Há espaço ainda para assinaturas de café, clubes de consumidores, marketplaces, vendas diretas pela internet, treinamento corporativo e cursos para baristas.

Na outra ponta está o produtor. Quanto maior a demanda por rastreabilidade e qualidade, maior tende a ser a importância comercial de informações sobre propriedade, região produtora, variedade e processamento.

É justamente essa conexão entre agronegócio e consumidor final que diferencia parte do mercado de cafés especiais.

Marca e experiência passam a fazer parte do valor do produto

A competição entre cafeterias também mudou.

Qualidade do grão continua fundamental, mas não é o único componente do negócio. Atendimento, formação dos profissionais, arquitetura, identidade da marca, sustentabilidade, gastronomia, presença digital e consistência operacional influenciam a percepção do consumidor.

A própria metodologia do ranking internacional reflete essa característica. A seleção combina 70% de avaliação profissional e 30% de votação popular, considerando diferentes elementos da experiência.

Do ponto de vista empresarial, isso significa que uma cafeteria precisa administrar simultaneamente produto, serviço, operação e marca.

Brasil tenta capturar mais valor dentro da própria cadeia do café

O aspecto econômico mais relevante está justamente nessa mudança de posição.

O Brasil possui enorme tradição na produção do café. O mercado de especiais amplia a possibilidade de participar também das etapas posteriores da cadeia, nas quais torrefação, desenvolvimento de marca, conhecimento técnico, serviço e experiência de consumo agregam valor à matéria-prima.

A presença de 12 empresas brasileiras entre as selecionadas em 2026 não mede sozinha o tamanho ou a rentabilidade do setor, mas funciona como uma fotografia da expansão e diversificação desses negócios pelo país.

Para empreendedores, produtores e investidores, a mensagem econômica é clara: o café deixou de ser apenas uma commodity na ponta do consumo e tornou-se plataforma para diferentes modelos de negócio, conectando agro, indústria, varejo, gastronomia, educação profissional e economia digital.