Reforma tributária pode triplicar impostos da Latam para R$ 6 bilhões e pressionar passagens aéreas

September 2, 2026

CEO da Latam Brasil, Jerome Cadier, afirma que aumento da carga será repassado aos consumidores; setor projeta passagens até 25% mais caras e alerta para efeitos sobre demanda, investimentos, turismo e conectividade aérea no país.

Por Gabrielle Tricanico | ECONOMIA & NEGÓCIOS | TELEBRAS NEWS

A reforma tributária brasileira abriu uma nova frente de preocupação para um dos setores mais intensivos em capital da economia. A Latam Airlines⁠ estima que o volume anual de impostos relacionados à sua operação no Brasil poderá saltar dos atuais R$ 2 bilhões para aproximadamente R$ 6 bilhões quando o novo sistema estiver plenamente implementado — uma expansão de R$ 4 bilhões, ou cerca de 200% sobre o patamar atual.

A projeção foi apresentada pelo CEO da Latam Brasil, Jerome Cadier, que classificou os efeitos da reforma sobre a aviação como uma “bomba atômica”. O executivo reconhece a necessidade de modernização do sistema tributário brasileiro, mas sustenta que o desenho aplicado ao transporte aéreo pode produzir consequências opostas às pretendidas para crescimento, turismo e integração nacional.

O ponto mais sensível para consumidores e para a economia está no repasse. Cadier argumenta que uma companhia aérea não consegue simplesmente absorver permanentemente uma elevação dessa magnitude em seus custos tributários. Na prática, parte da conta tende a chegar ao preço final dos bilhetes.

“Quem paga é o cliente, é quem está voando”, afirmou o executivo ao discutir o impacto tributário.

Passagens podem ficar até 25% mais caras

O alerta vai além do balanço financeiro da Latam. Em abril, Cadier estimou que a reforma poderia provocar uma elevação de até 25% nos preços das passagens aéreas, dependendo da forma como a tributação se materializar. Entidades do setor também projetam perda relevante de demanda caso o encarecimento seja confirmado.

O efeito econômico pode formar uma cadeia: imposto maior pressiona custos; custos maiores pressionam tarifas; passagens mais caras reduzem a demanda; menor demanda limita a abertura de rotas e diminui a capacidade de investimento das empresas.

Esse mecanismo interessa diretamente ao ambiente de negócios porque a aviação não movimenta apenas companhias aéreas. Aeroportos, hotéis, restaurantes, locadoras de veículos, empresas de tecnologia, agências de turismo, organizadores de eventos e milhares de pequenos negócios dependem, direta ou indiretamente, da circulação de passageiros.

O próprio setor argumenta que aproximadamente 60% dos custos da aviação brasileira estão vinculados ao dólar, tornando as empresas simultaneamente expostas ao câmbio, combustível, leasing e manutenção de aeronaves e outros componentes internacionais. Uma pressão tributária adicional, portanto, chega a uma indústria que já possui estrutura elevada de custos.

R$ 4 bilhões adicionais mudam a equação do negócio

Sob a ótica empresarial, a diferença entre os R$ 2 bilhões atuais apontados pela Latam e os R$ 6 bilhões projetados significa R$ 4 bilhões adicionais por ano.

É uma cifra suficientemente grande para interferir em decisões sobre aquisição e incorporação de aeronaves, expansão da malha, abertura de destinos e planejamento de capacidade.

Cadier ressaltou justamente a incompatibilidade entre investimentos de longo prazo e incerteza regulatória. Segundo o executivo, uma aeronave destinada à operação brasileira pode custar entre US$ 40 milhões e US$ 200 milhões, com retorno distribuído por vários anos.

Para investidores, portanto, a discussão tributária deixa de ser apenas uma questão fiscal: torna-se uma variável sobre retorno do capital investido e velocidade de expansão do mercado brasileiro de aviação.

Reforma entra em uma nova fase em 2027

O Brasil atravessa atualmente o período de transição da reforma dos impostos sobre consumo. Em 2026, CBS e IBS funcionam em fase de teste, com alíquotas de 0,9% e 0,1%, respectivamente, e mecanismos de compensação.

A mudança ganha uma dimensão maior a partir de 2027, com a extinção de PIS e Cofins e avanço da CBS. Entre 2029 e 2032 ocorre a substituição progressiva de ICMS e ISS pelo IBS. A implementação integral do novo modelo está prevista para 2033.

Isso significa que os R$ 6 bilhões mencionados pela Latam são uma projeção empresarial para o cenário da reforma implementada, e não uma conta tributária já efetivamente registrada pela companhia.

Esse ponto é relevante: o impacto líquido dependerá também do funcionamento dos créditos tributários e das alíquotas efetivas ao longo da transição.

Aviação coloca competitividade brasileira no centro da discussão

A preocupação das empresas é que a combinação entre tributação, combustível, câmbio e demais custos estruturais reduza a competitividade brasileira justamente em um momento no qual o país busca ampliar turismo e conectividade.

A discussão já extrapolou a Latam. Executivos de outras grandes companhias também vêm questionando o aumento da tributação sobre a aviação, argumentando que a redução da quantidade de passageiros produz efeitos sobre toda a cadeia econômica do turismo.

Para o mercado, portanto, a pergunta central não é apenas quanto as companhias aéreas pagarão em impostos.

É quanto custará voar no Brasil — e qual será o impacto desse preço sobre consumo, turismo, investimentos e crescimento econômico.